22.6.09

Set thursters back to idle and prepare for descent.

Há mais ou menos um mês eu recebi um simpático "Comunicado de Dispensa" do meu antigo empregador. Não digo que foi surpresa, mas não esperava que a coisa acontecesse da maneira que aconteceu. Sem entrar nos detalhes da ocorrido, todos os procedimentos foram executados de acordo: devolução dos equipamentos de propriedade da empresa, exame demissional, entrevista de desligamento, baixa na carteira de trabalho, homologação no sindicato, saque do FGTS e solicitação de seguro desemprego. Paralelamente a isso tudo, começou a busca pelo emprego perdido, o que, atualmente, é uma missão complicada e frustrante. Tal missão tem inclusive a capacidade de destruir a sua confiança na sua própria capacidade e de te deixar completamente estupefacto diante da falta de noção de alguns potenciais empregadores. "XPTO Senior, com 20 anos de experiência em 25 áreas de conhecimento completamente diversas. PhD no MIT desejável. Enviar CV com pretensão salarial para contratação PJ" parece ser uma coisa razoável para os recrutadores em geral. Algumas coisas nesse processo todo são muito estranhas, como por exemplo essa coisa toda da pretensão salarial. Se todo mundo fosse honesto, esse constrangimento poderia ser evitado por ambas as partes. Eu, enquanto candidato, tenho que adivinhar em qual intervalo o salário em questão se encontra. Minha real pretensão salarial é de, sei lá, um milhão de reais por hora, mas todos sabemos que isso não é compatível com o mercado atual. Se o recrutador fosse honesto, colocaria logo de cara quanto a empresa está disposta a pagar pelo serviço. Se a minha pretensão é x e a empresa quer pagar x/3, uma de duas coisas pode acontecer: ou eu nem me candidato, facilitando a vida do recrutador, ou eu aceito trabalhar por x/3, aumentando as opções do recrutador. Mas é claro que tem toda uma jogada entre uma situação e outra. Eu quero ganhar mais, a empresa quer me pagar menos. Simples assim. Pedir pretensão salarial é apenas uma maneira de jogar a responsabilidade de acertar o valor do salário que a empresa está disposta a pagar para o candidato. E não podemos reclamar, porque na visão geral, eu sou o maior interessado no emprego, não a empresa.
Outro efeito interessante da busca pelo emprego é que você começa a reavaliar todas as suas qualificações. Reavaliar não é exatamente a palavra, duvidar seria um termo muito mais adequado. Quando você percebe que as vagas pedem a certificação XYZ, conhecimentos amplos em praticamente TUDO e tudo mais que você possa colocar em uma vaga, eu, que já não estou nos meus melhores dias, tendo sido demitido e tal, começo a achar que eu não tenho absolutamente nenhuma qualificação para nenhuma das vagas ofertadas, o que me deixa ainda mais deprimido por provavelmente ter enganado a indústria por mais de 10 anos, trabalhando num ramo sem ter a menor qualificação. E isso gera um paradoxo interessante, porque quando empregado, as pessoas geralmente acham que estão cercadas de idiotas e pensam como uma empresa consegue funcionar com tanto imbecil junto. Pelo visto é tudo uma questão de postura mesmo. Quando você está empregado, você está confiante e pensa que é a melhor pessoa no seu respectivo ramo de atividade. Quando o desemprego bate à sua porta, você, que sempre achou que era o bom, começa a duvidar da sua capacidade e pensa constantemente que está no quartil inferior e que tem gente muito mais qualificada do que você em qualquer ramo. Quando você começa a duvidar da sua própria capacidade, fica tudo muito mais difícil e você fica até com vergonha de mandar um currículo para aquela vaga bacana que pede 40 anos de experiência na NASA. Mas a realidade é essa e o capitalismo funciona assim. A empresa quer sempre te fuder e o máximo que você pode fazer é pleitear um KY para que a experiência seja menos desagradável. E claro que nem toda empresa é assim, estou obviamente generalizando. E cá estamos, mais de um mês depois, sem uma entrevista, uma ligação, um email, um nada. O que resta é achar alguma forma de passar o tempo livre, de preferência que não envolva a programação diurna da televisão. Driblar o ócio é tão difícil quanto arrumar emprego. Quiçá mais difícil.
Mas, como diria Kurt Vonnegut, so it goes...